Café com Bolo de Uva no Natal

Mariane Castelo fechou cedo a cafeteria e seus empregados foram se arrumar. Como todos não tinham família, decidiu reuni-los em sua casa, mas antes de se arrumar para a ceia de natal decidiu fazer uma coisa. Ela precisava tomar uma atitude sem falta, pois aquilo estava lhe martelando a cabeça já há muitos anos. Desde quando veio para a cidade de Amparo, no interior paulista, e ganhou o título de Baronesa do Café fez um grande amigo que sempre lhe ajudava quando precisava presentear alguém. Aquele homem era um mestre em saber o que as pessoas gostavam. Outro dom que esse amigo tinha era o da percepção. Só de olhar ele sabia a evolução espiritual de uma pessoa durante o ano. Ele era capaz de saber se uma pessoa fez coisas boas ou ruins apenas observando a pessoa. Uma pena ter desperdiçado um dom tão magnífico como esse.

A baronesa Trancou a loja, mas levou consigo uma garrafinha de café espresso e um pedaço de bolo de uva. Entrou no Honda Civic preto e foi até a praça da Santa Cruz encontrar seu amigo. Chegando lá respirou o ar calmo da véspera de natal. Diferente dos filmes, estava calor e os mosquitos morrendo de fome. De longe avistou seu antigo amigo, o Nicolau, um idoso de barba longa e uma barriga enorme. O velhinho, cheirando a pinga e urina dormia gostoso no banco de concreto da praça e roncava como uma Scania. Como todo o barulho de véspera de Natal estava entre a rua 13 de Maio e a Rua 15 de Novembro os bairros ao redor eram silenciosos e por isso seu Nicolau dormia como um anjo. Mariane percebeu uns potes de comida ao lado e deu graças em saber que pelo menos nessa época do ano Nicolau tinha o que comer. Cutucou o homem umas sete vezes até ele perceber.

— Nossa, pai amado, que susto você me deu! – disse Nicolau se endireitando no banco. Ainda estava um pouquinho boêmio da pinga que havia tomado umas horas antes.

— Desculpa, Nic. Mas eu estava indo pra casa e resolvi lhe trazer um café. Sei que já tá tarde mas...

— Nunca é tarde para tomar um café, minha criança. Ainda mais se é um arábica com torra média da fazenda Olho Lilás. É um louco quem negar um café desse. Passa pra cá...

— Ué, como sabe que esse é um café da minha fazenda?

Mariane abriu a garrafinha térmica e entregou ao velho que deu um bom gole direto do bico.

— Ahhh, que delícia! – suspirou Nicolau. – Eu sei muita coisa, minha filha. Acredite! Mas na real foi um chute. Quando é que você deu para os outros um café que não fosse da sua fazenda? Tomar café lá no Khave é uma coisa, agora você dando café para outa pessoa... não ia arriscar que seu presente fosse algo ruim. Então claro que você me traria café da Olho Lilás.

— Cheque mate...

— Como andam as coisas, minha criança? Faz tempo que não te vejo...

— Eu sempre passo por aqui, mas você tem ficado muito ausente esse ano.

— Me chamaram lá em cima, Mariane. Parece que minha presença aqui não agrada muito. Eu briguei como sempre, mas no final das contas, parece que vou poder ficar mais um tempo aqui.

— E porque não volta para o Polo Norte? Não cansou de ser um mendigo velhote cheirando a pinga? Até o Saci agora usa prótese e viaja pelos lugares pagando de empresário. Tá na hora de você deixar de ser marrento e menos saudosista.

— Eu já estou no Polo Norte. Mas também estou na Estônia, Russia, Londres, Siri Lanka, Japão, Singapura, China, Itália e estou aqui. Ah, criança, saber usar o chacra para estar em mais de um lugar ao mesmo tempo é uma habilidade para poucos. Mas você tem razão, talvez eu volte a ativa algum dia. Estou um pouco cansado de tudo. Saudade de quando não eram os pais que compravam os presentes.

— Aposto que era uma época muito divertida. - Mariane

— E era, minha criança. Meu reino gelado era abastecido de presentes durante o ano todo e eu fazia toda a inspeção de quem ganhava ou não presentes. Então aqueles gnomos apareceram e as coisas ficaram mais fáceis. Mas depois...

— Depois a magia se acabou e você não tinha mais pique para continuar entregando os presentes no natal.

— Muitas coisas aconteceram, minha criança. A humanidade muda a cada ciclo. Nó que convivíamos entre as fronteiras do real e da fantasia fomos perdendo poderes. Antes eu conseguia estar em todos os lugares, mas durou pouco, agora se estou em quarenta países, isso é muito. Não consigo mais entregar tantos presentes como antes. Agora os pais das crianças compram os brinquedos e os presenteiam. Fico até encabulado em receber os créditos.

— Mas você já trabalhou muito em um tempo ao qual ninguém te dava crédito pra nada... e você vestia verde!

— Maldita Coca-Cola! Eu gostava tanto de usar verde. Depois que aqueles malditos me fizeram um velho gordinho e simpático de vermelho, nunca mais usei meu poncho verde.

— Nossa, eu lembro como você era antes. Deixa eu ver mais uma vez aquela sua verdadeira forma?

— Ah, não, ninguém mais me vê daquele jeito...

— Ninguém, ninguém? Eu já vi uma vez e achava muito lindo.

— Ah, e nunca mais verá. Um grande tronco de madeira com mãos de gelo, olhos de fogo com estômago que guardava um redemoinho, não é bem uma imagem boa para humanos guardarem com carinho. A real é que eu curti essa imagem do gordinho vermelho. Só acho que eles deveriam parar com essa ideia de que eu entro pela chaminé. Quem é que entra pela chaminé? Eu não sou bandido, oras.

— Mas invade a casa e deixa presentes. Não deixa de ser bizarro.

— Ah, humanos... acabaram com toda a magia...

— Olha, trouxe um pedaço do bolo de uva.

— Nossa, é o meu preferido! Você não existe, Mariane!

— Nem você!

— Achei isso ofensivo! – o velho amarrou a cara, mas não deixou de aceitar o bolo.

— Eu tenho uma proposta para você. – Mariane tirou um envelope verde do casaco.

Nicolau olhou para um lado, depois para o outro e sabia que Mariane apesar de ser uma pessoa boa com ele, ela não era lá uma mulher confiável. Mas ele gostava de café e de bolo de uva e nisso ele podia confiar.

— Me dá isso... vamos ver...

Nicolau pegou a carta, mas parou no meio do caminho, nem abriu. O envelope continha um selo mágico de contrato e um endereço, mas o velho nem sabe.

— Você perdeu a vontade e a magia depois que começou a presentear o filho dos outros. Sei que nada fará você voltar a sua rotina de antes, afinal, uma entidade egoísta do século passado na maioria das vezes é um cabeça dura. Mas você me deve um favor, lembra? Então, vamos considerar que isso será benéfico pra todo mundo. Eu preciso que você cuide de uma criança, por uns dez anos, depois vocês estão livres.

— Eu não sei...

— Ah, Nicolau! Vai dizer que não gosta de crianças?

— Não, bruxa! Não é isso! Eu amo crianças. Mas esse mundo, estou cansado dele... Os humanos estão cada dia mais plastificados com o tecido da realidade. Eu estou morrendo... Como vou cuidar de uma criança mortal?

— Quem disse? Você abriu o envelope? É um fantasma. Essa criança está assombrando uma das minhas fazendas, a Santa Maria, divisa com Serra Negra. Ela só precisa de cuidados até fazer a passagem. Só para não assustar os cavalos e o gado. Me ajuda?

O velho ficou pensativo, resmungou, mas pegou o envelope.

— Eu primeiro vou lá dar uma olhada. Depois te falo....

O velho se levantou, arrumou suas roupas surradas.

— Qual foi o nome do garoto?

— Ah, Nic, eles o chamavam de Menino do Pastoreio. Se você ficar com ele, você pode por o nome que quiser.

— Obrigado pelo café e o bolo. Estavam ótimos. Nos falamos depois, Feliz Natal!

Mariane se jogou no banco de concreto e sentiu-se aliviada. Mas levou um susto quando uma mão tocou seu ombro.

— Demônios! Não me assusta assim!

Era Moisés, o barista do Khave Café.

— Eu estava te procurando, pensei em ir junto com você, mas quando cheguei no café você já tinha saído. Aí senti sua presença aqui e resolvi vir o que estava acontecendo...

— Ah, Moisés, agora você deu de virar um perseguidor psicopata. Ser um Cigano já não é um ótimo currículo para ser bizarro.

— Nossa, como você é chata, Mariane. Nem me ofendo mais.

— Então vamos pra ceia?

— Eu vi você com o Nicolau. O que está planejando? Você sabe que esse mundo não está mais preparado para ter outra vez um Papai Noel de verdade.

­— Eu sei... Mas eu existo pra subverter a ordem de tudo. Primeiro eu preciso me livrar do garoto na minha fazenda. Eu não consigo lidar pessoalmente com ele.

— Claro, aquele menino é o protegido da Nossa Senhora. Sorte sua Nicolau não saber disso.

— Sei que Nicolau vai gostar muito do garoto. Vai tirar ele da minha fazenda, assim eu não tenho mais que lidar com ela. A Mãe do manto azul não gosta muito de mim.

— Você está se envolvendo muito com essas entidades. Nunca vi bruxa, ou mago, ou curandeiro algum lidar com tantos assim quanto você. Apesar de manipular todos eles, no fundo eu sei que não era do menino fantasma que você queria se livrar. Você queria que ele tivesse um ótimo natal e que Nossa Senhora protegesse o Nicolau dos pisos superiores. Afinal, ele estava morrendo, não é mesmo?

— Eu não sei de nada, Moisés. De nada...


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